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Introdução
Tradicionalmente as aulas de natação são centradas no
ensino-aprendizagem das técnicas formais de nado, de partida
e de viragem.
No entanto, antes das aulas de natação se centrarem nesses
conteúdos é necessário que os alunos adquiram um conjunto
de habilidades, comportamentos e conhecimentos específicos
do meio aquático. Langendorfer e Bruya (1995) denominam
esse processo de aquisição da "prontidão aquática", porque
antes de se aprender as habilidades motoras específicas
de cada actividade aquática, o indivíduo terá de apropriar-se
de comportamentos, habilidades e conhecimentos que o preparem
para as aquisições subsequentes. Já Carvalho (1984; 1985;
1992) e Mota (1990) denominam esse processo de "adaptação
ao meio aquático".
Ou seja, só após a adaptação ao meio aquático é que se
inicia a aprendizagem das habilidades motoras específicas
das diversas actividades aquáticas, como por exemplo,
da Natação Pura, do Polo Aquático, da Natação sincronizada,
dos Saltos para a Água ou, da Hidroginástica, entre muitas
outras actividades.
Se usualmente se assumia que a adaptação ao meio aquático
deveria ser realizada a partir do momento em que a criança
passava a frequentar o Ensino Pré-Escolar, ou seja, ao
terceiro ano de vida; hoje em dia, frequentemente, o processo
de adaptação ao meio aquático ocorre bem mais cedo, ainda
em bebé. Esse processo é realizado através das vulgarmente
denominadas aulas de "Natação para Bebés" (N.B.).
Na realidade, é frequente, a utilização de outras denominações,
em alternativa, como por exemplo, "Adaptação ao meio aquático
na primeira infância", "Natação precoce", "Actividades
aquáticas do bebé", etc.. Para alguns autores, ao referir-se
a aulas de "natação" para bebés, a comunidade em geral,
inclusive os pais, associaria esta actividade ao ensino
precoce das técnicas formais de nado. Daí que optem usualmente
pela utilização de outras denominações.
No entanto, actualmente, o conceito de saber nadar é diferente
do que se tinha no passado. Numa concepção tradicional,
"saber nadar" consiste em saber-se deslocar, no meio aquático,
usando as técnicas de Crol, de Costas, de Bruços ou de
Mariposa. Todavia, segundo Carvalho (1985; 1992) e Moreno
e Sanmartín (1998), saber nadar não é saber as técnicas
formais de nado. Mais do que isso, é saber estar no meio
aquático, de evidenciar uma boa relação com a água, sabendo
adoptar os comportamentos adequados face ao meio em questão.
E o bebé não irá aprender as técnicas de nado formais;
irá apropriar-se das condutas, dos conhecimentos e das
vivências essenciais para que saiba estar, para que saiba
comportar-se correctamente no meio aquático. Nesta perspectiva,
a denominação de "N.B." não será totalmente descabida.
Em síntese, efectuando uma breve reflexão sobre a terminologia
vulgarmente utilizada para as práticas aquáticas dos bebés
– "Natação para bebés" – emergem um conjunto de equívocos
relativamente aos seus propósitos, aos seus objectivos
e, consequentemente, aos seus conteúdos e às metodologias
a adoptar.
Desta forma este trabalho tem o intuito de clarificar
esse conjunto de equívocos sobre os objectivos dos programas
de N.B.
População alvo
1. Faixa etária
Para uma clara definição dos objectivos dos programas
de N.B., será necessário antes de mais caracterizar a
população alvo deste tipo de actividade aquática.
As aulas de N.B., como o próprio nome indica, destinam-se
a indivíduos que se encontrem numa faixa etária bastante
baixa. Todavia, não existe consenso quanto à idade precisa
para se dar início às aulas bem como, para que se deixe
de frequentar este tipo de programas e se passe a praticar
outro ou outros tipos de actividades.
Fouace (1980), refere que as aulas de N.B. deverão ter
o seu início aos 3 meses, dado que é a partir dessa idade
que a criança passa a manter a cabeça na vertical e culminará
aos 36 meses. Já Saakslahti (no prelo), indica como critérios
para o início das aulas ter, no mínimo, 3 meses de idade
e 5 Kg de peso. Por sua vez, Perez (1987), sustenta que
os 2 meses de idade é o ideal para se começar a praticar
actividades aquáticas. Luque (1995), refere a faixa etária
entre os 3 meses e os 24 meses de idade como sendo consagrada
às aulas de N.B.. Finalmente, Sarmento e Montenegro (1992),
estabelecem os 6 meses como sendo a idade para se iniciar
a prática da actividade e os 36 meses para o seu términos.
Em resumo, apesar de não existir consenso sobre quando
se pode começar e cessar a participação neste tipo de
programas, parece que o início ocorrerá entre os 3 e os
6 meses e, terminará entre os 24 e os 36 meses.
A justificação para a adopção deste intervalo de idades
para se iniciar as aulas terá por base diversos motivos.
Em primeiro lugar, antes de se começar a frequentar actividades
aquáticas será necessário que o bebé aumente um pouco
o seu peso. Isto tendo em vista que as probabilidades
da criança exibir estados de hipotermia - frequentes em
águas com uma temperatura relativamente abaixo do normal
- sejam menores. Em segundo lugar, dado que o sistema
imunológico do recém-nascido é bastante deficitário, será
necessário dar algum tempo para que esse mesmo sistema
se desenvolva, antes de passar a frequentar um meio propenso
à contracção de diversos tipos de problemas de saúde,
como são os de foro vírológico, bactérológicos ou, micótico.
O motivo para se indicar, usualmente, o fim das aulas
de N.B. aos 36 meses, parece que tem por base o desenvolvimento
motor da criança. Ou seja, os tipos de programas a proporcionar
aos sujeitos devem-se coadunar com o nível de desenvolvimento
ontogenético que eles evidenciam. Daí que se deva planear
as actividades aquáticas do bebé e da criança tomando
em consideração o seu nível de desenvolvimento (Perez
et al., 1997).
De acordo com Gallahue (1982), a primeira fase do desenvolvimento
motor é a fase dos movimentos reflexos, a qual durará
desde o nascimento até ao primeiro ano de idade. Esta
fase é caracterizada pelas manifestações motoras da criança
traduzirem-se, essencialmente, por respostas reflexas
a vários estímulos sensoriais. A fase seguinte, e que
durará até aos 2 anos de idade, caracteriza-se pelo aparecimento
dos primeiros movimentos voluntários – é a fase dos movimentos
rudimentares, como sejam, a preensão intencional, o gatinhar
e o andar. É a partir desta idade, ou seja, aproximadamente
a partir dos 2 anos de idade, os movimentos rudimentares
darão lugar aos movimentos fundamentais, isto é, correr,
saltar, lançar, agarrar, etc.
Ora, aparentemente, as crianças terminam a sua frequência
às aulas de N.B., no período de transição da fase dos
movimentos rudimentares para a fase dos movimentos fundamentais.
Que é o mesmo que dizer que, em consequência da passagem
da criança de uma fase de desenvolvimento motor para uma
outra, os conteúdos, as metodologias e os princípios de
trabalho a adoptar também serão alterados. Por outras
palavras, dado que entre os 2 e os 3 anos ocorre um período
de transição de uma fase do desenvolvimento motor para
outro, isso significa que, os conteúdos a apresentar à
criança deverão ser outros, de modo a que se adeqúem à
nova fase de desenvolvimento do sujeito.
2. O papel de pediatra
Antes de começar a frequentar as aulas de N.B., a criança
deverá ser consultada por um médico pediatra (O'brien
et al., 1983; Perez et al., 1997). Essa consulta terá
em vista que o médico dê o seu aval à participação do
bebé nas aulas. E, se for caso disso, indicar ao professor
qualquer tipo de limitação ou cuidado especial a ter com
o aluno.
Para mais, o próprio professor deverá ter na sua posse
uma declaração médica que autoriza a criança a participar
nas aulas (O'brien et al., 1983; Dorado, 1990). Esse documento
deverá ser um elemento chave para a criação e implementação
de um programa de trabalho individualizado, de acordo
com as características ou limitações específicas de cada
bebé. Isto é, com base nas indicações que o médico pediatra
fizer, será possível criar programas de trabalho individualizados,
segundo as informações fornecidas pelo clínico, tendo
em consideração as possibilidades e as necessidades particulares
de cada sujeito.
3. Contra-indicações
Existem situações em que a prática das actividades aquáticas
em termos gerais e, no caso particular da N.B., estão
contra-indicadas. Ou seja, existem determinadas situações
em que a prática de actividades aquáticas por parte dos
bebés se encontram interditas ou condicionadas.
Essas contra-indicações podem ter um carácter quer temporário,
quer permanente. Já as contra-indicações permanentes podem
ser ou absolutas ou relativas.
Camus (1995) refere enquanto contra-indicações temporárias,
para a prática de N.B., a presença de estados febris e
de infecções. Por sua vez, Fouace (1980) e Dorado (1990)
acrescentam a estas contra-indicações o período após a
vacinação anti-varíola, durante o período de cicatrização
de feridas ou, o período pós-cirúrgico.
É considerada como sendo uma contra-indicação permanente
mas relativa, segundo Camus (1995), a epilepsia. À qual
se poderá acrescentar as deficiências mentais ligeiras
e moderadas ou, as deficiências motoras.
No que se concerna com as contra-indicações permanentes
e absolutas, Camus (1995), indica as cardiopatias congénitas
e as otites crónicas. Dorado (1990), para além das cardiopatias
congénitas, aponta as dificuldades de deglutição, as insuficiências
pulmonares e a deficiência mental profunda. Já Fouace
(1980) a estas contra-indicações adiciona os problemas
renais.
Objectivos
Independentemente da actividade física que a criança ou
o jovem pratique, esta deverá promover o seu desenvolvimento
de forma harmoniosa e integral. No seguimento deste pressuposto,
é possível afirmar que um programa de actividades aquáticas
na primeira infância também deve estimular o desenvolvimento
integral dos seus participantes (Cárdenas et al., 1998).
Assim sendo, as aulas de N.B. deverão ter em vista objectivos
de índole psicomotor, cognitivo e social, com o propósito
de promover o desenvolvimento harmonioso e integral do
sujeito.
Objectivos psicomotores
Os objectivos psicomotores são os mais referidos na literatura.
Talvez porque se associe facilmente as actividades físicas
a objectivos deste género, apesar de ser possível atingir
outras categorias de objectivos.
E de todos eles, o autosalvamento é o mais citado pelos
diversos autores (Fouace, 1980; Dorado, 1990; Sarmento
e Montenegro, 1992; Ahr, 1994; Luque, 1995). Porventura
porque, historicamente, as primeiras classes de N.B. surgiram
com essa intenção (Perez et al., 1997), ficando, consequentemente,
essa ideia irraízada em todos os quantos leccionam a actividade.
Com efeito, o autosalvamento remete-se para a possibilidade
da criança se deslocar com "à vontade" no meio aquático,
com pouca probabilidade de se afogar. Ou seja, que a criança
domine o meio aquático, estando adaptada a este.
Para que tal objectivo seja cumprido, Sarmento e Montenegro
(1992) dizem que a criança terá de ser capaz de: (i) aceitar
a água nos olhos, nos ouvidos, na boca e, no nariz; (ii)
bloquear a respiração; (iii) colocar-se na posição horizontal
e vertical, à superfície e profundidade e; (iv) utilizar
os quatro membros como segmentos propulsivos.
Contudo, o Comité de Medicina Desportiva da American Academy
of Pediatrics (1985), afirma que será pouco provável que
as crianças aprendam a salvar-se de situações de afogamento.
Pelo contrário, segundo o Comité, criará um falso sentido
de segurança nos pais e nas próprias crianças.
Na realidade, caso se considere autosalvamento a capacidade
de indivíduos bastante novos sem auxílio de alguém mais
velho, em situação de afogamento, conseguirem salvar-se
será um erro. Com as aulas de N.B., a criança adquirirá
um conjunto de comportamentos que, no máximo, permitem
que não se apodere um sentimento de medo ou receio ao
ter a face imersa, sem poder respirar e, que seja capaz
de se manter a flutuar, bloqueando a respiração até que
alguém venha em seu socorro.
Concomitantemente, as aulas de N.B. mais do que possibilitarem
à criança salvar-se de situações de afogamento, promoverão
uma adaptação ao meio aquático desde cedo, o que irá favorecer
a relação do sujeito com a água ao longo de toda a vida.
Isto porque a água será um meio privilegiado para experimentar
novas sensações, novos comportamentos motores e estimular
os diversos sentidos.
A N.B. decorre num meio particular, diferente dos demais.
Por exemplo o meio aquático é mais denso que o meio terrestre.
Logo, para realizar uma tarefa a uma dada intensidade
nos dois meios, o gasto calórico será superior na água
do que no meio terrestre. Assim sendo, a prática da N.B.,
também permitirá diminuir a percentagem de tecido adiposo
(Ahr, 1994), fortalecer os músculos e o tecido conjuntivo
(Ahr, 1994) e, desenvolver o sistema cardiorespiratório.
Em resumo, a N.B. permitirá o desenvolvimento psicomotor
da criança, enriquecendo as suas experiências sensoriais
e motoras (Fouace, 1980; Dorado; 1990; Luque, 1995; Moreno
e Sanmartín, 1998; Numminen e Saakslahti, no prelo).
Objectivos cognitivos
A nível cognitivo, também é possível cumprir alguns objectivos
nas aulas de N.B. (Dorado, 1990; Cárdenas et al., 1998).
Apesar de muitas vezes se ter a ideia que as crianças
nestas idades são seres passivos, que reagem única e exclusivamente
a motivações relacionadas com a sua sobrevivência, como
por exemplo, comer e dormir. Contudo, elas tendem a absorver
todas as informações, todos os estímulos oriundos do meio
envolvente.
A sistematização dos objectivos, em termos cognitivos,
a atingir nas aulas de N.B., baseiam-se nos estádios de
desenvolvimento cognitivo proposto por Piaget (1970).
Segundo o psicólogo, numa primeira fase, entre o nascimento
e os dois anos de idade, a criança ao relacionar-se com
o meio através do movimento, organiza e estrutura o seu
conhecimento da realidade que a rodeia. É a etapa da inteligência
sensório-motora. Por exemplo, através das aulas de N.B.,
aprende a destinguir diversos objectos, espaços ou pessoas.
Numa segunda etapa, aproximadamente entre os dois e os
sete anos, com base nas representações sensório-motoras
que vivenciou no passado, consegue antecipar os acontecimentos.
É a etapa da inteligência pré-operatória. Por exemplo,
nas aulas de N.B., durante a etapa sensório-motora a criança
apercebe-se que ao mover os quatro membros propulsiona-se.
Já na etapa seguinte, ao colocarem um determinado brinquedo
fora do seu alcance, o bebé sabe que se mover os quatro
membros desloca-se e poderá alcançar o referido objecto.
Objectivos sociais
A segunda categoria de objectivos mais referidos na literatura,
após os psicomotores, são os sociais.
Pertencemos a uma sociedade onde se vive a um ritmo acelerado.
Na maioria dos casos, os pais desempenham a sua actividade
profissional fora de casa, saindo cedo para o emprego
e chegando a casa, quantas vezes bastante tarde. Logo,
os períodos de interacção, de convívio com o seu filho,
não será o suficiente.
Todavia, dado que os pais estão presente e participam
nas aulas de N.B., eles têm de ter um papel activo, interagindo
com o seu filho. Assim sendo, as aulas também terão como
objectivo promover e aumentar o tempo de interacção, de
convívio dos pais com o seu filho (Ahr, 1994). Ou seja,
as aulas de N.B. serão uma excelente justificação para
os pais poderem dar mais alguma atenção, carinho, afecto
e amor ao seu filho.
Por outro lado, muitos dos bebés durante o dia mantém
contacto com poucas pessoas, especialmente os que passam
grande parte do tempo em casa ao cuidado de familiares.
Nesses casos, o campo de relações dessas crianças limita-se
a um reduzido número de pessoas. Portanto, a N.B. também
terá como objectivo promover as primeiras interacções
sociais do bebé, permitindo que este se relacione com
outros bebés e com outros adultos, que não são os familiares
mais próximos (Ahr, 1994). Por outras palavras, as aulas
de N.B. também poderão favorecer o processo de socialização
da criança (Perez et al., 1997; Moreno e Sanmartín, 1998).
Em síntese, a aula de N.B. será um momento de uma relação
rica, intensa e privilegiada dos pais com o seu filho
(Fouace, 1980; Luque, 1995; Moreno e Sanmartín, 1998;
Saakslahti, no prelo) e de socialização do bebé (Perez
et al., 1997; Moreno e Sanmartín, 1998).
Conclusões
Efectuando uma resenha do que foi dito anteriormente,
a N.B. não se limita a perseguir única e exclusivamente
objectivos de índole psicomotriz. E muito menos, o ensino
das técnicas formais de nado, de partida e de viragem.
Pelo contrário, deverá promover um desenvolvimento harmonioso
e integral de cada criança que participe neste tipo de
actividade aquática, uma vez que se encontram adstritos
a ela objectivos de diversa ordem, como os psicomotores,
os cognitivos e os sociais. Logo, a N.B. mais do que uma
mera actividade motora, deverá ser entendida como um espaço
privilegiado de educação infantil, com a particularidade
de se realizar num meio menos habitual: o aquático.
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